terça-feira, 13 de julho de 2010
ReTer
Com certa doçura de tristeza
Ao lembrar das mulheres que tive
Pensei se é possível ter alguém
Como os poetas machistas
Sempre a falar de suas mulheres
Daí pensei nas minhas, só nelas
Os amores eu tive
As lembranças retive
As mulheres se foram
De vez em quando alguém volta.
domingo, 4 de julho de 2010
Tô atrás
Ando assim, meio descompassado
Meio de mal com o passado
Todo sem saber pra que lado
Tô esperando pelo que não chega
Achando que nada chega
Que tudo nunca se preenche
Tô com os olhos meio inquietos
Com os olhares todos quietos
Meio cheio de tudo vazio
Tô míope com os óculos postos
Com os pensamentos indispotos
Cheio de deveres auto impostos
Tô esperando na estação
Cansado de não ação
Tô meio mal, tô não
Tô atrás
Tô atrasado.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Candangônica
Alguém atravessa a rua em brasília. Os carros se param todos. Os motoristas variam entre a sensação de dever cumprido após anos de adestramento cívico e a impaciência pra chegar logo à esplanada. Na verdade, a pressa é de sair logo do eixo lotado, porque a esplanada sempre pode esperar. Aos poucos, chega a multidão, sempre pequena no vazio do espaço. Eixo monumental lotado, dia de demonstração de força sindical, dia de fora alguém. No meio da confusão, uma praça, uma fonte e um buriti solitário assistindo a tudo, impassíveis: grandes congestionamentos, manifestações, violência policial, bicicletadas, visitas oficiais, despachos, usuários de crack, renúncias, posses, secas... No horizonte de junho, um balão de são joão se perde na poeira vermelha que os tratores levantam no setor noroeste, lembrando a agonia do cerrado. Depois do protesto, o endereço da cerveja varia, beirute, piauí, pôr-do-sol, meu bar, desfrute e os outros endereços de quem é de meio esquerda pra lá. Um grito de é de luta ecoa. As mesas nas calçadas das entrequadras, a porção de carne-de-sol, manteiga de garrafa e o pipoqueiro na esquina da SQN, ou S. Será que temos esquinas? Não, temos é quinas de quadra, que não é a mesma coisa, porque a esquina enseja algo além da vista, e aqui tudo se vê de longe, todos se vêem de longe. Uma cidade de eixos e cruzamentos, de carros e filas duplas, mas sem esquinas. Depois do bar, festa na unb, proibida e liberal, quebrar um nos bambus da fau. De vez em quando um beijaço quebra a rotina, expondo os contrastes da cidade, desenhada moderna, ocupada provinciana. A sorte é que o conic sempre nos desmente, desenhado quadrado, ocupado livremente. Dreadlocks de classe média atravessam a ponte do bragueto em seus jipes, saída norte pro feriado na chapada. Aqui tudo tem direção, cada rua aponta para um ponto, só que as pessoas têm medo, ou preguiça, de se apontar. Acontece que brasília é silêncio, principalmente quando há mais de uma pessoa no elevador. Da unb, se atravessa o descampado pra entrar nas superquadras norte, pra caminhar embaixo dos blocos, locus candango por excelência. O porteiro vai saindo, pra pegar o corujão pra planaltina, uma das poucas coisas que já estavam aqui antes do plano, quando tudo era só planalto e cerrado. No dia seguinte, é fácil se encontrar na rodoviária, curtindo um pastel da viçosa enquanto se rumina o transporte ruim da cidade planejada. Aqui, embaixo da rodoviária, onde o eixão se enfurna no buraco do tatu, brasília cruzou eixos pela primeira vez. Acontece que brasília já nasceu torta e teima em crescer fora dos eixos. No plano piloto, até os moradores de rua, os acampados dos descampados, têm vista pro congresso e pra bandeira que trêmula na praça dos três poderes. Os despoderados observando os poderes que se observam. Ironia a la candanga.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
OttottO
Me senti como o personagem de Irvine Welsh em Trainspotting, que vai andando complamente maluco pelo show do Iggy Pop e entra em êxtase ao ouvir a frase "America takes drugs in psychic defense", porque sabe que aquele cara drogado no palco definiu uma geração em uma frase.
Foi assim quando o Otto cantou a frase acima.
domingo, 13 de junho de 2010
Metrônicas
A mulher sentava de costas para a janela do vagão de metrô. Tomava um mocca do Starbucks, tamanho extra-grande, que custava alguns poucos cents a mais que um tamanho grande e não muito mais cents do que um de tamanho pequeno. O copo se esfumaçava, açucares se dissolvendo, cheiro de canela. A mulher era negra e grande, meio velha. Olhava para o copo com dedicação. Sorvia goles mínimos, o máximo que a temperatura do líquido permitia. Seu rosto se contorcia em prazer. A cada gole, a espera, pautada em contemplação. O objeto amado, o ícone venerado. Cada olhar hipnótico interrompido com um novo gole, em mínima dosagem superior ao antecedente. E assim, o rito corria sempre ao ápice do prazer, o maior gole de todos, o último. Depois, resta ali um copo vazio, como um Deus despojado de sua deidade, resta o ícone, o involucrório a ser venerado. A cada olhar, a lembrança daquilo que já não é, o ícone se transmutando em conteúdo. Ainda mais vazio.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Grão
pedra desfeita
areia de rio
areia de mar
pequena fração
parte por milhão
da metade, metade, metade, metade, metade...
e ainda sim, como pode ser?
se dentro de tal quantidade
inda encontro a minha metade...
terça-feira, 20 de abril de 2010
Réquiem para um LG KF300
Me despertando aos poucos, sem pressa
Durante o dia, já não o sinto junto a mim
Em sua suave vibração incessante
Já não durmo mais ao seu lado
Recarregando as energias todas
Você sempre tão esperto
Eu sempre tão perto
Como viver sem você?
Vou reaprendendo...
Já se perderam nossas imagens
Se apagaram nossas mensagens
E o jogo de Sudoku nível difícil ficou por terminar
Por que pifastes, ó celular?
