quarta-feira, 21 de julho de 2010

São Paulos

A Variant azul chegava capengando até o alto da serra, o carro cheio: pai, mãe, irmãos, malas, comida, garrafa d’água pela metade e ansiedade muita. Cruzar o Túnel da Mata Fria era como adentrar num mundo distante. Entrar na Serra da Cantareira era a certeza de que eu havia saído de casa, de que aquilo ali era uma viagem mesmo. Duas horas desde a Mantiqueira parecia uma viagem imensa. Naquela época, tempo era uma dimensão maior que espaço. O espaço pra mim era finito, fronteiras delimitadas: casa e escola em Pouso Alegre, casa da Tia e da Vó em São Paulo. Só as visitas à praia ensejavam que o mundo ia pra além disso, mas eu custava a acreditar.

No alto da serra eu ficava ansioso, esperando São Paulo se descortinar por entre os morros. Aquele contraste me fascinava, serra e mata, prédios e fumaça. Ainda hoje fascina. Mas eu tinha medo daquela cidade que parecia engolir a serra e a gente junto. Só que era um medo gostoso, medo de quando meu irmão me segurava pelos braços e me rodava no ar, até ficar tonto. Eu sabia que estava a ponto de cair, mas que não caía. Era esse misto de tensão e segurança que eu adorava. Eu sabia que passaria ileso por São Paulo, que meus pais dirigiriam por ruas conhecidas de uma vida, que a cada sinal fecharíamos os vidros com cuidado e que nosso carro era emplacado ali mesmo, sem dar bandeira de forasteiro, todos os cuidados milimétricos com a segurança da família. Todas as estratégias para sairmos ilesos de uma cidade da qual ninguém é imune. Assim, eu passeava por São Paulo como um moleque no zoológico: assistia abobado à cidade exótica e amedrontadora emoldurada pela janela de trás da Variant azul, como um filme. São Paulo era para mim, então, ficcional. Eu passava por suas avenidas, via seus monumentos, sentia o cheiro de suas águas, me encalorava de trânsito, mas saía ileso. Emoldurava a cidade na janela da Variant azul e ali me sentia seguro, como que sentado em frente à TV. Não me passava pela cabeça caminhar por aquelas ruas, embora conhecesse algumas em detalhes. Não me passava pela cabeça falar com aquela gente, embora guardasse suas feições. São Paulo era um filme que eu assistia no caminho pra casa da Vó.

Chegava na casa da Vó. Casa velha, circundada de chácaras há cinquenta anos, engolida pela periferia já por aquela época. Lembro de que no planejamento ficava sempre sem solução a segurança do carro, parado na calçada, denotando o conteúdo de classe média da casa. Nunca ficávamos relaxados e, cada pouco, um de nós ia à janela velar pela Variant azul. Ela nunca deixou de estar lá. Nem ela e nem os carros que vieram antes e depois. Mesmo hoje os carros permanecem lá, embora minha Vó já tenha ido. A casa da Vó era doces, pastéis, pizza, macarrão com frango, guaraná barato. Era um mundo diferente, mãe e filha, velha e meia idade, Vó e Tia, uma organização familiar que ainda não fazia sentido pra mim. Porque minha Vó enviuvou pra sempre? Por que minha Tia ficou pra tia? Uma casa de mulheres que vivia à sombra de homens idos: meu Vô há tantos anos, meu pai há uns quantos. Restava o quarto de meu pai, vazio de pessoas, abarrotado de objetos acumulados com os anos. Do meu Vô restava o galpão de carpinteiro, vazio e misterioso, que nos fazia fantasiar a rotina de migrante trabalhador, de artesão, mãos que fizeram os móveis mais bonitos da minha casa, mãos que eu nunca toquei.

Da casa dessa Vó e dessa Tia, íamos pra outra casa de Vó e outra Tia. Mais ficção paulistana no caminho até o ABC. Lá, mais doces, salgados, abraços, carinhos e brincadeiras com os primos, muito mais contidas do que as que tínhamos quando eram eles que iam nos visitar na roça.

Hoje ando por São Paulo num misto de despertencimento e familiaridade. Ando por ruas quase conhecidas, como conheço velhos atores de cinema clássico em preto e branco. São Paulo se descortinava para mim como um bloco de concreto maciço por detrás da serra, o mito de origem da família. São Paulo se descortina pra mim por detrás do concreto, como novidade e escolha. E eu gosto.

terça-feira, 13 de julho de 2010

ReTer

Hoje me peguei pensando
Com certa doçura de tristeza
Ao lembrar das mulheres que tive

Pensei se é possível ter alguém
Como os poetas machistas
Sempre a falar de suas mulheres

Daí pensei nas minhas, só nelas

Os amores eu tive
As lembranças retive
As mulheres se foram

De vez em quando alguém volta.

domingo, 4 de julho de 2010

Tô atrás

Ando assim, meio descompassado

Meio de mal com o passado

Todo sem saber pra que lado

Tô esperando pelo que não chega

Achando que nada chega

Que tudo nunca se preenche

Tô com os olhos meio inquietos

Com os olhares todos quietos

Meio cheio de tudo vazio

Tô míope com os óculos postos

Com os pensamentos indispotos

Cheio de deveres auto impostos

Tô esperando na estação

Cansado de não ação

Tô meio mal, tô não

Tô atrás

Tô atrasado.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Candangônica

Alguém atravessa a rua em brasília. Os carros se param todos. Os motoristas variam entre a sensação de dever cumprido após anos de adestramento cívico e a impaciência pra chegar logo à esplanada. Na verdade, a pressa é de sair logo do eixo lotado, porque a esplanada sempre pode esperar. Aos poucos, chega a multidão, sempre pequena no vazio do espaço. Eixo monumental lotado, dia de demonstração de força sindical, dia de fora alguém. No meio da confusão, uma praça, uma fonte e um buriti solitário assistindo a tudo, impassíveis: grandes congestionamentos, manifestações, violência policial, bicicletadas, visitas oficiais, despachos, usuários de crack, renúncias, posses, secas... No horizonte de junho, um balão de são joão se perde na poeira vermelha que os tratores levantam no setor noroeste, lembrando a agonia do cerrado. Depois do protesto, o endereço da cerveja varia, beirute, piauí, pôr-do-sol, meu bar, desfrute e os outros endereços de quem é de meio esquerda pra lá. Um grito de é de luta ecoa. As mesas nas calçadas das entrequadras, a porção de carne-de-sol, manteiga de garrafa e o pipoqueiro na esquina da SQN, ou S. Será que temos esquinas? Não, temos é quinas de quadra, que não é a mesma coisa, porque a esquina enseja algo além da vista, e aqui tudo se vê de longe, todos se vêem de longe. Uma cidade de eixos e cruzamentos, de carros e filas duplas, mas sem esquinas. Depois do bar, festa na unb, proibida e liberal, quebrar um nos bambus da fau. De vez em quando um beijaço quebra a rotina, expondo os contrastes da cidade, desenhada moderna, ocupada provinciana. A sorte é que o conic sempre nos desmente, desenhado quadrado, ocupado livremente. Dreadlocks de classe média atravessam a ponte do bragueto em seus jipes, saída norte pro feriado na chapada. Aqui tudo tem direção, cada rua aponta para um ponto, só que as pessoas têm medo, ou preguiça, de se apontar. Acontece que brasília é silêncio, principalmente quando há mais de uma pessoa no elevador. Da unb, se atravessa o descampado pra entrar nas superquadras norte, pra caminhar embaixo dos blocos, locus candango por excelência. O porteiro vai saindo, pra pegar o corujão pra planaltina, uma das poucas coisas que já estavam aqui antes do plano, quando tudo era só planalto e cerrado. No dia seguinte, é fácil se encontrar na rodoviária, curtindo um pastel da viçosa enquanto se rumina o transporte ruim da cidade planejada. Aqui, embaixo da rodoviária, onde o eixão se enfurna no buraco do tatu, brasília cruzou eixos pela primeira vez. Acontece que brasília já nasceu torta e teima em crescer fora dos eixos. No plano piloto, até os moradores de rua, os acampados dos descampados, têm vista pro congresso e pra bandeira que trêmula na praça dos três poderes. Os despoderados observando os poderes que se observam. Ironia a la candanga.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

OttottO

"Aqui é festa, amor, e há tristeza em minha vida."

Me senti como o personagem de Irvine Welsh em Trainspotting, que vai andando complamente maluco pelo show do Iggy Pop e entra em êxtase ao ouvir a frase "America takes drugs in psychic defense", porque sabe que aquele cara drogado no palco definiu uma geração em uma frase.

Foi assim quando o Otto cantou a frase acima.

domingo, 13 de junho de 2010

Metrônicas

A mulher sentava de costas para a janela do vagão de metrô. Tomava um mocca do Starbucks, tamanho extra-grande, que custava alguns poucos cents a mais que um tamanho grande e não muito mais cents do que um de tamanho pequeno. O copo se esfumaçava, açucares se dissolvendo, cheiro de canela. A mulher era negra e grande, meio velha. Olhava para o copo com dedicação. Sorvia goles mínimos, o máximo que a temperatura do líquido permitia. Seu rosto se contorcia em prazer. A cada gole, a espera, pautada em contemplação. O objeto amado, o ícone venerado. Cada olhar hipnótico interrompido com um novo gole, em mínima dosagem superior ao antecedente. E assim, o rito corria sempre ao ápice do prazer, o maior gole de todos, o último. Depois, resta ali um copo vazio, como um Deus despojado de sua deidade, resta o ícone, o involucrório a ser venerado. A cada olhar, a lembrança daquilo que já não é, o ícone se transmutando em conteúdo. Ainda mais vazio.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Grão

grão de pó
pedra desfeita
areia de rio
areia de mar
pequena fração
parte por milhão
da metade, metade, metade, metade, metade...
e ainda sim, como pode ser?
se dentro de tal quantidade
inda encontro a minha metade...