sábado, 17 de março de 2012

marítima


o seu vestido branco branco branco como noite de lua pálido na pele escura os cabelos soltos subindo subindo caindo caindo para todos os lados preenchendo o vácuo da presença objeto sideral atraindo corpos no espaço espaço cheio de distâncias destas que se observam entre si e seguem sua órbita longe longe longe dos olhos esses seus olhos grandes que alcançam tudo tímidos de tanta curiosidade curiosidade desnudante que não pede permissão esses braços magros que onduleiam como o cabelo e movimentam todo o resto do corpo todo o resto do quarto todo o resto do mundo e eu me mareio sinto no ar sua maresia que me enferruja eu aço oxidado nos seus braços ponte condenada longe deles desabo desabo desabo é no mar profundo que eu caio no pulmão água nos olhos sal vou boiando tal qual mensagem em garrafa esperando um dia a margem margem cheia de névoa da manhã misturando as linhas a que prometemos vida e juramos de morte essas coisas que a gente só vê no escuro afinal são os sorrisos dados em prestações são as lágrima pagas a longo prazo

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Esquina

Tinha os olhos fundos, como que se usassem o globo ocular pra se esconder do mundo. Ainda que taciturnos e branqueados da catarata, era possível ver-lhes vivacidade nos poucos momentos em que se permitiam um escrutinante olhar alheio. Busquei-os muitas vezes ao passar por aquela esquina e mesmo que deixasse ali uma ou duas moedas, raras vezes os recebi em troca. Era no fim da manhã que ficava com o acordeão de oito baixos, de teclas e dedos sujos, de corpo riscado e enrugado. Dela, muitas vezes, só se notava presença depois que os pés chutavam o chapéu e as moedas se agitavam umas contras as outras, produzindo som de almoço. Ficava no chão, membros e olhos. Os homens de preto, buscando andar como guardiões da estirpe, pateticamente imponentes, mantinham sempre os olhos estagnados no horizonte, a não ser para despir as roupas das moças, como se deles fosse o direito ao mundo. Não a viam. É verdade que caminhariam ali a vida toda sem ver lá muitas coisas. Não importa, não a viam, nem poderiam ver, mesmo que lhe jogassem os trocos dos bolsos dos paletós. Se a soberba embaça os olhos, não é estranho que o desinteresse entupa aos ouvidos. A coisa é que por ali se passava como se atravessa um corredor sem janelas. Como no escuro as pupilas se dilatam e os olhos se aguçam, é a luz do dia que a cegueira visita com mais frequência.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Para Siba

Também lembro do momento que parti
Inúmeras as vezes que voltei
A casa continua em pé
Quase em pé pessoas
A vida em ritmo de árvores
Num dia de vento e nuvens
Daqueles que olhar pra cima
Faz sentir-se o centro de tudo
Quando a gente para o céu se mexe
Em mim a sensação das nuvens
Ao redor de mim coisas no vento
Voltar é ir embora de um lugar
Especialmente na tarde fria
Chegar é dar-se conta da partida
Especialmente com café

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

tempo corrido

faço memórias como quem sobrevive de si lembro porque é minha a memória porque recordar é lembrar em mim e sendo minha eu que nunca neguei o egoísmo me declaro no direito de lembrar como invento pois de inventar é que lembro e lembrando tanto e a todo momento me coloco nesse corajoso embate com o tempo do qual não pretendo sair vencedor já que a vontade maior é jogar na cara dele umas quantas inverdades mostrando que se de passado é o presente e se é o ofício mesmo do tempo passar de um lado pro outro que se passa quando ele vai de volta pra trás quando passa de banda e futuro passado presente qual é menos contemporâneo e onde que ele para pra que se possa contar sem que ele fique assim a passar enquanto se conta que além de ser muito do deselegante ainda dá e mais que dá fica dando o trabalho extra de continuar contando toda vez que parece que já foi tudo e se todo mundo se põe a falar sobre o tempo desde os clássicos e os lunáticos até os lunáticos clássicos será que vale de alguma coisa ser mais uma voz a ficar lhe inflando o ego este que já deve andar bem acariciado por ser tema assim tão recorrente digno da atenção de tanta gente quase a todo instante e a denúncia é que isso já é quase um monopólio pois que o tempo além de não deixar de passar o que já é de consenso um estorvo e de não deixar ninguém passar em seu lugar ainda fica nas bocas dos que passam por ele uma parte muito mais do que aconselhável do próprio tempo e está aí o círculo vicioso de que por mais que passe o tempo nunca nos deixa remédio que senão ficar pensando como ele passa e isso sem nem bem sabermos como já discutido anteriormente se ele passa mesmo de um lado pro outro sendo que essa direção de um lado pro outro equivaleria a do começo pro fim sem parar ou fazer rodopio é por isso que eu alço minha voz esta falando em nome da memória ressaltando que a intenção é ser revolucionário ainda que o adjetivo em questão ande meio desacorçoado aliás palavra esta que merecia voltar a moda mas o que importa é que o que é uma revolução senão uma embolada no tempo pra trocar de lugar o que ali estava desde sempre ou ao menos já deveria estar ou estava antes e de um momento pro outro arrancaram ou ainda estava no lugar certo mas em mãos erradas por isso espero que no fim eu tenha mesmo a razão entendendo por razão não a certeza eterna de estar certo mas a dúvida irrevogável de estar errado o que me coloca numa posição mais arrojada quiçá até confortável e não é que eu esteja advogando por uma espécie de negação da conversão salvadora aquela que no fim dos tempos há de nos salvar de modo relativamente igualitário desde que nossos camelos passem pelo buraco da agulha ou que se costure pela noite com a mesma agulha do dia ou algo parecido mas é que mesmo que exista o tal fim e ele inexoravelmente chegue um belo ou não tão belo dia ainda assim nada me convence de que eu caminho pra ele e não ele pra mim o que já o torna mesmo que fim amplamente questionável pois que já se sabe que talento não falta para a invenção de começos

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Da Clarice

Foi lendo a Clarice dizer que não se somam maçãs e cadeiras que passei a não conseguir dizer mais "a minha vida". Esse mosaico de sentimentos, lembranças, sensações, interações acaba sempre numa história linear que alguém conta e reconta para si mesmo. Queria conseguir dizer "eu lembro" e associar, de repente, mil contradições, todas vivas, todas contemporâneas, todas conflito, e, ainda assim, todas eu e meu. Queria que a vida fosse um grito por perdição, desses que a gente grita pra ferir o próprio ouvido, e que, se pelo grito chegasse o socorro, este fosse para trazer cada vez mais encruzilhadas, ou mesmo que me carregasse para fora do caminho, por que é só sem ter de onde sair e aonde chegar que eu conseguiria estar em algum canto. Queria poder responder às perguntas que me fazem com respostas evasivas, inconclusivas, prolixas, inexplicáveis e que, de volta, recebesse, em vez de um sorriso de aprovação ou um franzir de desentendimento, mais palavras soltas, como se falássemos em línguas estranhas pelo simples prazer de sentir que as palavras vibram e que isso antecede todo e qualquer significado. Queria que fosse o corpo não só essa referência externa que eu vejo andar pelo tempo, esta coisa, coisa mesmo, que dá uma explicação subjetiva para o mundo apenas até onde se pode dizer “esta é minha trajetória”. Não, queria que meu corpo fosse meu mundo, e que ele se estendesse do infinitesimal até bem pra lá dessa pele, primeira fronteira que nos ensinam a reconhecer e entrincheirar. Queria que me ensinassem a arte de pular os muros antes da matemática de construí-los. E mesmo a matemática a queria, mas sem a ânsia de resolver todas as contas, pois que antes de resolver uma equação é preciso propor outra ainda mais complexa, e assim sucessivamente, até que não valha mais a pena voltar pra primeira. Queria maçãs e cadeiras juntas e divididas e multiplicadas e fracionadas e somadas e subtraídas até que mesmo separadas, já não saberia mais qual é qual.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Eu gostaria de fazer uma observação

Caros senhores, não levem a mal estes roucos lamentos

Pois é através da fala que desato os nós do desabafo

De modo que gostaria de já pedir sinceras desculpas aos senhores

Mesmo que o palestrar seja ainda tão breve

Peço que relevem estas palavras ruidosas de catarro

É minha garganta, não os olhos, que umedece a fala

(Camarada, traga mais uma bebida, faça o favor

Que é sem dúvida o copo o ouvinte mais paciente)


Veneráveis colegas, perdoem se não vos reconheço

É essa aridez de julho que embaça-me a visão

Mas sem dúvida encontro-os nobres cavalheiros

Sendo, por isso, que faço esta breve nota explicativa

Obviamente apenas a título de mera introdução

E se falo em tais brados para tão seleta plateia

É que este mundo teima em fechar-me os ouvidos

Assim que é preciso erguer a voz para fazer-se escutar


Pois vejo que em dileta companhia encontro-me

De modo que não serei módico em minha fala

Não pouparei esforços para bem expressar-me

Pautando que o altíssimo nível dos espectadores

Permite-me o requinte de laurear as orações

Com o cabido recurso da riqueza vocabular

Fazendo com que a angústia destas palavras

Não acabe com todo o gosto de ouvirem-me


Agora vou diretamente ao cerne da questão

Ao perceber que já quase extrapolo o tempo

Que o bom senso separa ao meu cansado lamurio

Até por que acabo de perceber que os sábios senhores

Meus nobres interlocutores nesta escura e fria madrugada

Já não demonstram todo o entusiasmo do princípio

De modo que é de bom tom encerrar logo o preâmbulo

Para adentrar de uma vez na carne mesma de meu discurso


Doutos companheiros, perdoem pois o possível enfado

Que pode lhes causar estas minhas gratuitas lacrimosidades

Creio que alcançarei tê-las justificadas plenamente

Pela urgência em dizer-lhes tudo o quanto tenho anseio

Pela necessidade de compartilhar com os bons, no caso os senhores,

As minhas mais recentes descobertas acerca do mundo

Frutos, estas, do mais profundo e doloroso aprendizado

Possibilitado pelo decifrar do texto que a vida escreve por cicatrizes


Por fim, renomada audiência desta minha dialética solitária

Novamente desculpo-me caso canse vossos diletos ouvidos

Mas hão de dar-me razão tão logo ao término deste colóquio

Pois trago a placidez de saber-me arauto de notícias da nova era

(Se me permitem, claro, esta quase que mística metáfora)

Livre de confundir ingenuamente o novo com o bom

Devo confessar-me pessimista, o que foi por mim denunciado desde o começo

Antes de transmitir-lhes a mais premente das mensagens


Noto que os senhores estão a perguntarem-se, entre cochichos

Por que aqui, e por que agora, dá-se este inusitado momento

E devo dizer-lhes com toda a segurança e comiseração

Que quis a divina providência, a qual tenho enorme apego

De que vos calhasse a missão de escutarem-me esta noite

Pois vejo em vossos corações a coragem e sensibilidade necessárias

Para arcar com o peso deste monólogo cheio de significados

O qual exigirá dos senhores um ônus de não pouca responsabilidade


É, portanto, desta maneira que me encaminho ao final, meus honrosos senhores

Exaltando vossas qualidades, tão vastas quanto vossos deveres

Sabendo que assim dou por encerrado o fardo que é esta minha sina

E se sobre meus ombros paira a melancolia em lugar de alívio

É por ter a certeza inabalável de haver feito nada mais que o necessário

É por ter a clarividência da conturbação do tempo em que entramos

Assim que é por isso que não quero tomar sequer um minuto mais dos dignos senhores

E com pressa vos digo tudo aquilo que vos é preciso dizer:


Distintos senhores, a vida nunca será suficiente, pois que o pranto é rio perene. Agora façam-me o favor de irem a merda.



quarta-feira, 22 de junho de 2011

Educação sentimental

O ônibus de São Paulo estava sempre cheio e atrasado. Mesmo assim, nossa mãe sempre cumpriu o ritual de esperar a fila quase terminar pra caminhar em direção ao ônibus, aproveitando os silenciosos minutos de espera para velar nossos corpos de filho, pressentindo a separação iminente da carne. No entanto, assim também agia em descarnadas separações, umas com mais outras com menos vivacidade, porém sempre exigindo um retorno pródigo.



Daí que sempre um dia ou dois depois do Natal, ela levava a gente na rodoviária pra despedir da Tia. Esperavam todos sentados nas banquetas de cimento, menos nossa mãe, que tinha nojo dos assentos e das nossas roupas poluídas de cidade.



Pra despedir da Tia nossa mãe preparava a gente com antecedência: depois do banho tomado vestia a gente com os presentes ganhos e exigia a cara boa, responsabilidade de sobrinhos únicos. O ônibus chegava e a gente meio que na passividade. Ao ver o inevitável, a gente carregava as malas da Tia até a porta e, se pesadas demais, eu subia no ônibus, maravilhado de pisar naquele lugar tão sumidiço, sentindo ponta de inveja daquelas pessoas, que tinham pela frente quatro horas de poltronas e serras.



Na longa espera entre a porta fechar e o ônibus sair, depois de efusivas despedidas, a gente ficava em pé de frente pro embarque. Nossa mãe exigia uma voluntariosa coreografia: “A Tia tá olhando!”. Quatro mãos se levantavam e agitavam o ar, ao que uma respondia entre cabeças e janelas. Era o teatro de gostar da Tia.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Charada


O que é isso que sobrevém e sobrevive do sentir
Mas que foge ao se tentar dar sentido

Algo que pede tanto e tudo de mim
Mas que em vez de acalmar desnorteia

O que me ensurdece os ouvidos
Sem nem carecer de fazer barulho

Isso que ainda calado me cala
E sobre o que nada resta dizer

Esse trem que é clarividência
Escondida pelo escuro dos cantos

Essa alguma que me tirou o chão
No momento que me deu a vida

Esse negócio que transcende
E não me tira eu do lugar

Essa ilusão de mudança
Que me fez e faz permanecer

O que é essa coisa sagrada
Que me deixa cheio de tesão

O que é isso que as palavras não podem descrever
Mas que é pelas palavras que se torna indescritível?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Caminero

Tierra de descaminos
A veces necesito caminar por ti
Me es necesario perderme
Por tus espesos humos

En la isla que yo denominé mundo
Continental era mi casa
Del mundo que estoy aislado
Sín fín es mi frontera

De todo que me establecí limitrofe
Soy cercado en la ciénaga
De los tramos de ir y venir
Soy ilustre prisionero

Entonces que hice mi bandera
Con el dibujo de mis cicatrices
Pero hasta a ella ya he jurado en vano
Como vana y torpe ha sido ella

Así es que camino.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Pré-tempestade

Eram nuvens de chuva
Azul encarnado
Na imaginação eram montanhas
Por detrás dos verdes dos morros
Que ficavam atrás da minha casa

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Mapa

Tento me livrar nesta cidade, tento me ver livre nela

Tento me achar em suas avenidas e descampados

Tento achar trilhas nos vãos e vazios


E por mais portas que eu feche

Por mais voltas que dê nas chaves

Não me sinto imune

A cidade me habita


Tento sair ileso

Mas trago seu mapa inscrito no corpo

Suas ruas me atravessam

Suas travessas me cortam


Por mais que eu olhe a cidade de um golpe

Por mais que finja ser tudo vizinhança

A cidade me avança nos olhos

E me inunda de visão periférica


Daí, procuro separar a cidade em planos

Planejo fugas de seus caminhos

Quero redomas ao meu redor

Mas muros não há, só espaço


E é no espaço que a cidade separa

É no cruzar que a cidade se afasta

Para uns, o mapa é piloto

Para outros, o mapa é satélite

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

metrolinguagem

não é que assim, logo de manhã
no caminho do dia
no ônibus que sacoleja
me invade esse papel ocre
moldado a canetas e lápis de cor

me surpreende essa ironia
de que nessa manhã tranquila
no corriqueiro trânsito do dia
a beleza se distancie de si
e ponha-se tão displicente
a falar da violência da própria beleza

talvez lhe sobrem espelhos
ou seja que seu reflexo no mundo
volte a ela como beleza alheia
pode ser que ela esqueça, por fim
que os sorrisos que lhe chegam, se belos
o são por que para ela são

domingo, 22 de agosto de 2010

Away

Away do mundo.
Maldita seleção de mestrado.
Um dia eu volto.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

São Paulos

A Variant azul chegava capengando até o alto da serra, o carro cheio: pai, mãe, irmãos, malas, comida, garrafa d’água pela metade e ansiedade muita. Cruzar o Túnel da Mata Fria era como adentrar num mundo distante. Entrar na Serra da Cantareira era a certeza de que eu havia saído de casa, de que aquilo ali era uma viagem mesmo. Duas horas desde a Mantiqueira parecia uma viagem imensa. Naquela época, tempo era uma dimensão maior que espaço. O espaço pra mim era finito, fronteiras delimitadas: casa e escola em Pouso Alegre, casa da Tia e da Vó em São Paulo. Só as visitas à praia ensejavam que o mundo ia pra além disso, mas eu custava a acreditar.

No alto da serra eu ficava ansioso, esperando São Paulo se descortinar por entre os morros. Aquele contraste me fascinava, serra e mata, prédios e fumaça. Ainda hoje fascina. Mas eu tinha medo daquela cidade que parecia engolir a serra e a gente junto. Só que era um medo gostoso, medo de quando meu irmão me segurava pelos braços e me rodava no ar, até ficar tonto. Eu sabia que estava a ponto de cair, mas que não caía. Era esse misto de tensão e segurança que eu adorava. Eu sabia que passaria ileso por São Paulo, que meus pais dirigiriam por ruas conhecidas de uma vida, que a cada sinal fecharíamos os vidros com cuidado e que nosso carro era emplacado ali mesmo, sem dar bandeira de forasteiro, todos os cuidados milimétricos com a segurança da família. Todas as estratégias para sairmos ilesos de uma cidade da qual ninguém é imune. Assim, eu passeava por São Paulo como um moleque no zoológico: assistia abobado à cidade exótica e amedrontadora emoldurada pela janela de trás da Variant azul, como um filme. São Paulo era para mim, então, ficcional. Eu passava por suas avenidas, via seus monumentos, sentia o cheiro de suas águas, me encalorava de trânsito, mas saía ileso. Emoldurava a cidade na janela da Variant azul e ali me sentia seguro, como que sentado em frente à TV. Não me passava pela cabeça caminhar por aquelas ruas, embora conhecesse algumas em detalhes. Não me passava pela cabeça falar com aquela gente, embora guardasse suas feições. São Paulo era um filme que eu assistia no caminho pra casa da Vó.

Chegava na casa da Vó. Casa velha, circundada de chácaras há cinquenta anos, engolida pela periferia já por aquela época. Lembro de que no planejamento ficava sempre sem solução a segurança do carro, parado na calçada, denotando o conteúdo de classe média da casa. Nunca ficávamos relaxados e, cada pouco, um de nós ia à janela velar pela Variant azul. Ela nunca deixou de estar lá. Nem ela e nem os carros que vieram antes e depois. Mesmo hoje os carros permanecem lá, embora minha Vó já tenha ido. A casa da Vó era doces, pastéis, pizza, macarrão com frango, guaraná barato. Era um mundo diferente, mãe e filha, velha e meia idade, Vó e Tia, uma organização familiar que ainda não fazia sentido pra mim. Porque minha Vó enviuvou pra sempre? Por que minha Tia ficou pra tia? Uma casa de mulheres que vivia à sombra de homens idos: meu Vô há tantos anos, meu pai há uns quantos. Restava o quarto de meu pai, vazio de pessoas, abarrotado de objetos acumulados com os anos. Do meu Vô restava o galpão de carpinteiro, vazio e misterioso, que nos fazia fantasiar a rotina de migrante trabalhador, de artesão, mãos que fizeram os móveis mais bonitos da minha casa, mãos que eu nunca toquei.

Da casa dessa Vó e dessa Tia, íamos pra outra casa de Vó e outra Tia. Mais ficção paulistana no caminho até o ABC. Lá, mais doces, salgados, abraços, carinhos e brincadeiras com os primos, muito mais contidas do que as que tínhamos quando eram eles que iam nos visitar na roça.

Hoje ando por São Paulo num misto de despertencimento e familiaridade. Ando por ruas quase conhecidas, como conheço velhos atores de cinema clássico em preto e branco. São Paulo se descortinava para mim como um bloco de concreto maciço por detrás da serra, o mito de origem da família. São Paulo se descortina pra mim por detrás do concreto, como novidade e escolha. E eu gosto.

terça-feira, 13 de julho de 2010

ReTer

Hoje me peguei pensando
Com certa doçura de tristeza
Ao lembrar das mulheres que tive

Pensei se é possível ter alguém
Como os poetas machistas
Sempre a falar de suas mulheres

Daí pensei nas minhas, só nelas

Os amores eu tive
As lembranças retive
As mulheres se foram

De vez em quando alguém volta.

domingo, 4 de julho de 2010

Tô atrás

Ando assim, meio descompassado

Meio de mal com o passado

Todo sem saber pra que lado

Tô esperando pelo que não chega

Achando que nada chega

Que tudo nunca se preenche

Tô com os olhos meio inquietos

Com os olhares todos quietos

Meio cheio de tudo vazio

Tô míope com os óculos postos

Com os pensamentos indispotos

Cheio de deveres auto impostos

Tô esperando na estação

Cansado de não ação

Tô meio mal, tô não

Tô atrás

Tô atrasado.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Candangônica

Alguém atravessa a rua em brasília. Os carros se param todos. Os motoristas variam entre a sensação de dever cumprido após anos de adestramento cívico e a impaciência pra chegar logo à esplanada. Na verdade, a pressa é de sair logo do eixo lotado, porque a esplanada sempre pode esperar. Aos poucos, chega a multidão, sempre pequena no vazio do espaço. Eixo monumental lotado, dia de demonstração de força sindical, dia de fora alguém. No meio da confusão, uma praça, uma fonte e um buriti solitário assistindo a tudo, impassíveis: grandes congestionamentos, manifestações, violência policial, bicicletadas, visitas oficiais, despachos, usuários de crack, renúncias, posses, secas... No horizonte de junho, um balão de são joão se perde na poeira vermelha que os tratores levantam no setor noroeste, lembrando a agonia do cerrado. Depois do protesto, o endereço da cerveja varia, beirute, piauí, pôr-do-sol, meu bar, desfrute e os outros endereços de quem é de meio esquerda pra lá. Um grito de é de luta ecoa. As mesas nas calçadas das entrequadras, a porção de carne-de-sol, manteiga de garrafa e o pipoqueiro na esquina da SQN, ou S. Será que temos esquinas? Não, temos é quinas de quadra, que não é a mesma coisa, porque a esquina enseja algo além da vista, e aqui tudo se vê de longe, todos se vêem de longe. Uma cidade de eixos e cruzamentos, de carros e filas duplas, mas sem esquinas. Depois do bar, festa na unb, proibida e liberal, quebrar um nos bambus da fau. De vez em quando um beijaço quebra a rotina, expondo os contrastes da cidade, desenhada moderna, ocupada provinciana. A sorte é que o conic sempre nos desmente, desenhado quadrado, ocupado livremente. Dreadlocks de classe média atravessam a ponte do bragueto em seus jipes, saída norte pro feriado na chapada. Aqui tudo tem direção, cada rua aponta para um ponto, só que as pessoas têm medo, ou preguiça, de se apontar. Acontece que brasília é silêncio, principalmente quando há mais de uma pessoa no elevador. Da unb, se atravessa o descampado pra entrar nas superquadras norte, pra caminhar embaixo dos blocos, locus candango por excelência. O porteiro vai saindo, pra pegar o corujão pra planaltina, uma das poucas coisas que já estavam aqui antes do plano, quando tudo era só planalto e cerrado. No dia seguinte, é fácil se encontrar na rodoviária, curtindo um pastel da viçosa enquanto se rumina o transporte ruim da cidade planejada. Aqui, embaixo da rodoviária, onde o eixão se enfurna no buraco do tatu, brasília cruzou eixos pela primeira vez. Acontece que brasília já nasceu torta e teima em crescer fora dos eixos. No plano piloto, até os moradores de rua, os acampados dos descampados, têm vista pro congresso e pra bandeira que trêmula na praça dos três poderes. Os despoderados observando os poderes que se observam. Ironia a la candanga.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

OttottO

"Aqui é festa, amor, e há tristeza em minha vida."

Me senti como o personagem de Irvine Welsh em Trainspotting, que vai andando complamente maluco pelo show do Iggy Pop e entra em êxtase ao ouvir a frase "America takes drugs in psychic defense", porque sabe que aquele cara drogado no palco definiu uma geração em uma frase.

Foi assim quando o Otto cantou a frase acima.

domingo, 13 de junho de 2010

Metrônicas

A mulher sentava de costas para a janela do vagão de metrô. Tomava um mocca do Starbucks, tamanho extra-grande, que custava alguns poucos cents a mais que um tamanho grande e não muito mais cents do que um de tamanho pequeno. O copo se esfumaçava, açucares se dissolvendo, cheiro de canela. A mulher era negra e grande, meio velha. Olhava para o copo com dedicação. Sorvia goles mínimos, o máximo que a temperatura do líquido permitia. Seu rosto se contorcia em prazer. A cada gole, a espera, pautada em contemplação. O objeto amado, o ícone venerado. Cada olhar hipnótico interrompido com um novo gole, em mínima dosagem superior ao antecedente. E assim, o rito corria sempre ao ápice do prazer, o maior gole de todos, o último. Depois, resta ali um copo vazio, como um Deus despojado de sua deidade, resta o ícone, o involucrório a ser venerado. A cada olhar, a lembrança daquilo que já não é, o ícone se transmutando em conteúdo. Ainda mais vazio.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Grão

grão de pó
pedra desfeita
areia de rio
areia de mar
pequena fração
parte por milhão
da metade, metade, metade, metade, metade...
e ainda sim, como pode ser?
se dentro de tal quantidade
inda encontro a minha metade...